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Carreira bellydancer requer mais que talento para a dança; exige maturidade

janeiro 17, 2018

(Foto: Jay Andreotti)

“É preciso estudar, viver a sua verdade na dança e compreender que ainda assim não é todo dia que você vai arrasar”, diz Munira Magharib

 

Por Deisy de Assis

São duas décadas e meia de história como bailarina oriental árabe. Formada em Arquitetura com pós-graduações em outras áreas, Munira Magharib decidiu que seguiria carreira na dança que a cativou ainda criança. E a dança disse sim. Ou será que foi o contrário? Teria a dança pedido o sim de Munira?

Ela considera que a escolha foi recíproca, porém, nem por isso menos desafiadora. “Tem que ter disposição, porque é exaustivo – há dias em que chego a dar 8 horas de aula. Sem contar os finais de semana que precisamos abrir mão de estar com a família para fazer shows e dar workshops.”

Por outro lado, o amor de Munira por essa arte tornou sua trajetória repleta de sentimentos que despertaram o desejo de alçar vôos mais altos. A bailarina procurou aperfeiçoamento em danças folclóricas com os bailarinos Ghassam Fadlallah, Mohamad Shahin, Gaby Shiba, Ahmdad Fekry e Gamal Seif, entre outros. Ela também estudou com o músico egípcio Hossam Ramzy e foi a bailarina escolhida para a capa do CD duplo dele, Best of Baladi and Saidi.

Para Munira, os estudos (práticos e teóricos) e a sua verdade na dança são pilares fundamentais para a composição e o desenvolvimento de uma bailarina. Entretanto, também é preciso maturidade para compreender o mercado e, entre outras coisas, que “não é todo dia que você vai arrasar” em cena.

Nesta entrevista ao Diário de Uma BellyDancer, a mestra Munira Magharib também conta sua opinião sobre mercado e o ensino da dança do ventre.

Diário de uma BellyDancer – Seus primeiros contatos com a dança e a música árabes foram na infância. Como se derem essas vivências?

Munira Magharib – Minha mãe tem ascendência marroquina (da região de Tanger), por parte de pai. Ela não foi criada na cultura árabe, mas teve muito contato com pessoas árabes na infância e adolescência, com as quais ela aprendeu movimentos de dança e, depois, ensinou alguns para mim. Lembro-me que ela tinha um disco chamado Port Said que eu ficava ouvindo e dançando pela sala, fazendo os movimentos que aprendi com ela, de braços e de quadril, e usando um pano para fazer as vezes de véu.

Diário – E como foi a transição das danças de menina pela sala de casa para uma carreira profissional?

Munira – Quando eu tinha 14 anos eu fui estudar na Inglaterra e lá conheci muito árabes. Na época eu já dançava um pouco, do meu jeito. Ao retornar para o Brasil, planejava fazer aulas de dança, mas não encontrei professora de imediato. Foi aos 17 anos que me tornei aluna de dança do ventre, tendo a Fátima Fontes como professora, além do contato com outras bailarinas que já dançavam na casa de chá Khan El Khalili, de onde eu também passei a fazer parte no ano seguinte, aos 18.

Eu também me apresentava em um restaurante chamado “Porta Aberta”, que era muito famoso em São Paulo, e comecei a fazer shows com bandas árabes. Posso dizer que com certeza isso ajudou muito a desenvolver minha dança, principalmente por trabalhar bastante com improvisos, o que contribui para que a gente vá pegando jeito de emenda de movimentos. Enfim, foi muito importante para mim.

(Fotos: Adelita Chohfi (à esquerda) e Jay Andreotti (à direita))

Diário – Toda área profissional tem seus obstáculos. No Brasil, quais são os da dança do ventre?

Munira – São muitas coisas em diferentes aspectos. Ente elas, o fato de o profissional ter que se manter sempre bem fisicamente (tem que estar forte, ter disposição, porque é exaustivo – tem dia que chego a dar 8 horas de aula). Além disso, a bailarina precisa estar bem consigo mesma e compreender que não é todo dia que ela vai arrasar, o que não é fácil. É necessário aceitar que o mercado se renova constantemente e novas profissionais vão aparecendo. Eu vejo muita gente se deprimindo porque vê surgirem bailarinas maravilhosas e que arrasam, vejo que as pessoas sofrem com isso. Por isso é preciso estar bem consigo mesma. Cada profissional deve ser feliz com as coisas que acontecem para ela a partir da dança e, se isso não estiver acontecendo, algo pode estar errado e precisa ser revisto. Acho isso muito importante. Muitas pessoas têm um grande talento para a dança, mas não têm maturidade para ser bailarina, o que acaba atrapalhando muito a carreira. Outra coisa: temos que ser muito éticas e respeitosas, jamais ficar falando mal do trabalho da outra, cada um tem seu lugar e seu espaço no mercado.

Diário – Muitas bailarinas falam das remunerações baixas. Qual sua opinião? E o que você considera um caminho possível para um equilíbrio nesse aspecto do mercado?

Munira – No meu caso, por conta da carreira já consolidada, viajo bastante para dar aulas, workshops e fazer shows. Então, não vivencio esse problema. Mas sei que como muitas pessoas aceitam dançar por um cachê baixíssimo ou mesmo de graça, as demais profissionais saem prejudicadas. Acontece, por exemplo, de o contratante que não conhece de dança não fechar uma contratação dizendo que o cachê da bailarina é caro. Pelo que acompanho, até por relatos de alunas, isso é frequente com quem está chegando no mercado. Acredito que para dançar em restaurantes deveria ter um cachê mínimo, se não daqui a pouco ninguém vai querer mais pagar.

Diário – Do que mais a área profissional da dança do ventre precisa para ser tornar um mercado melhor?

Munira – Sobre o mercado é difícil falar, são tantas coisas… Mas acho que as pessoas deveriam ter mais cuidado para se tornarem professoras de dança do ventre, pois tem acontecido de a bailarina dar aulas sem ter o conhecimento, cultural e técnico, necessário para ensinar. Chegam pessoas para estudar comigo com mais de oito anos de aula e que ainda assim não sabem nada, têm problemas até para pisar no ritmo. Então, acho que na formação é fundamental haver mais cuidado. Do jeito que as coisas estão não sei como seria possível consertar, sei que as pessoas precisam ter mais base técnica, entender de ritmo, cultura e saber dar aula.

Diário – Sobre o assunto “técnica” existe um antigo debate “técnica perfeita X sensibilidade”. Como você vê essa questão?

 Munira – Eu acho que a técnica liberta ao permitir que você use sua sensibilidade para dançar. Quando a técnica já está no seu corpo, aí você consegue colocar toda a sua bagagem e expressão, até porque não dá para se libertar assim se você estiver pensando no que vai fazer com o braço ou com outra parte do corpo. Agora, se for me perguntar o que eu prefiro assistir, entre uma bailarina muito técnica e outra mais artística, eu gosto mais de ver a mais artística, a mais sensível. Às vezes a técnica está perfeita, as pessoas se preocupam em fazer tudo certinho, pegando tudo da música, mas a expressão não está legal, então você vê que aquilo tudo foi muito planejado. Eu prefiro uma coisa um pouco mais solta. Mas nem por isso eu deixo de apreciar uma boa técnica, até porque a limpeza de movimentos faz parecer tudo fácil e natural.

Diário – Ainda a respeito dessas duas questões, técnica e expressão, quais são as armadilhas que levam as bailarinas mais novas a cair em uma ou em outra destas situações (muita técnica sem expressão ou muita sensibilidade e pouca técnica)?

Munira – Eu diria que quando você pisa no palco você precisa ser o que realmente é. O que ocorre é que a bailarina que está começando vê a outra fazer um determinado movimento, ou um personagem, e imita, pensando que se está dando certo para aquela, dará para ela também. Não vai dar. Só vai dar certo se ela for ela mesma. Se ela imitar alguém, aquilo perde força e fica artificial, vemos claramente que não é verdadeiro.

Diário – Diferente do Ballet, a dança do ventre não possui um protocolo com um padrão a ser seguido. Há quem defenda essa necessidade. O que você acha?

Munira – Eu acho interessante existirem diversos estilos na dança do ventre, porque tem a ver com a cultura e a bagagem de cada pessoa. Vejo essas diferenças como algo muito interessante. Se não existissem tantos, seria sem graça. Porém, algumas coisas são o mínimo. Por exemplo, eu citei a questão da técnica, que é importante ter boa técnica, é necessário que a bailarina entenda da parte cultural e como se dança cada estilo. Mas a padronização de um estilo eu acho complicado, pois a dança do ventre tem a ver com diferentes estilos, até porque, dentro dos países árabes, há diferentes estilos.

(Foto: Divulgação Munira Magharib)

Diário – Por falar em Ballet, você teve o primeiro contato com ele há bastante tempo e o pratica até hoje, além de somar 20 anos de caminhada com o Yoga. Que contribuição essas modalidades proporcionam à sua dança?

Munira – Tudo que você estuda de dança é importante para agregar, faz parte da composição da sua bailarina. Ainda estudo ballet. Acredito que a dança do ventre movimenta determinados músculos, já o ballet, outros. Ele também proporciona mais consciência postural.

Mas Yoga para mim é tudo! Amo demais! E tem tudo a ver com minha dança, que é uma dança flexível, não só pelos cambrês, mas pelos meus movimentos. Eu tenho um trabalho constante de alongamento, força e equilíbrio. Isso, sem dúvida, é muito positivo para a minha dança.

Nas minhas aulas eu fico “martelando” sobre o quanto é importante trabalhar força, alongamento e equilíbrio. As pessoas, às vezes, acham que isso não é necessário para dançar, mas é preciso desenvolver seu corpo, para que ele fique apto para você fazer aquilo que tem vontade durante a dança.

Diário – Na infância você também estudou piano, música clássica e popular e teclado oriental. Você diria que essas experiências somaram algo à sua bailarina?

Munira – Sem dúvidas foi fundamental para mim, pois contribuiu para aguçar os ouvidos para a música, distinguir melhor os instrumentos e conseguir decorar mais rapidamente uma frase musical.

Diário – Ao longo da sua trajetória você passou por lugares como Egito, Líbano, Síria, Turquia e Marrocos. Qual foi o “papel” dessas viagens no seu desenvolvimento técnico e na consolidação da sua carreira?

Munira – Eu morei no Egito em 1999. Foi muito interessante, pois conheci mais de perto o povo, a cultura, regiões, o modo de vida etc.. Essa proximidade permite ter um conhecimento maior que é fundamental para a bailarina. Para dançar bem você precisa entender a cultura desse povo – se é alegre, se é tímido, se é expansivo, se é forte. Tudo o que conheci somou muito positivamente à minha trajetória.

Diário – Quem foram e/ou são suas referências de estudo?

Munira – Sempre estudei muito a Fifi Abdo. E digo que aprendi a dançar com a Fifi, eu fiz poucas aulas de dança e estudei muito por vídeo, porque já tinha a base para os movimentos. Eu assistia também a Mona Saidi, Aza Sharif, Samara (Líbano), Ruaida e Amani. Então essas foram as minhas referências de estudos.

Diário – Você é conhecida também por seu trabalho com folclore. É sua predileção na dança?

Munira – O que eu mais gosto de dançar é difícil dizer (risos). Eu sou de gêmeos, então, gosto de dançar muitas coisas. O Said – aquele de raiz mesmo – e o Dabke são meus folclores preferidos. Também adoro dança beduína. Porém, ao mesmo tempo amo dançar músicas poéticas, românticas e Tarab, como “Inta Omri” e “Alf Leila wa Leila”.

Diário – O que mais a faz feliz por ser bailarina?

Munira – O reconhecimento do público, saber que as pessoas têm um carinho tão grande por você, isso não tem preço. Eu sou muito feliz por isso, e também quando estou no palco dançando… Eu acho que a dança transforma. Você pode estar triste, com algum problema, mas se você colocar uma música e começar a dançar, isso é capaz de transformar você por dentro.

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